5 críticas sociais presentes nas músicas do BTS
Confira diferentes críticas sociais presentes nas músicas do BTS que talvez você não tenha percebido

Quando falamos sobre o BTS, muitos podem enxergar apenas os estádios lotados, as coreografias milimetricamente ensaiadas e os recordes quebrados nas paradas de sucesso. No entanto, o verdadeiro diferencial do septeto sul-coreano, que os transformou em uma das maiores potências da atualidade, são as suas letras, utilizadas como uma fonte corajosa para expor e criticar as falhas da sociedade.
Servindo como uma espécie de manifesto social, desde o seu debut os integrantes do boygroup nunca hesitaram em apontar o dedo para as estruturas que sufocam as novas gerações, transformando rimas afiadas e melodias marcantes em ferramentas de denúncia, com letras que ecoam, principalmente, muitos problemas enfrentados pela juventude global da atualidade.
Para conhecer um pouco mais, confira 5 críticas sociais presentes em diferentes músicas do BTS:
1. Diferenças socioeconômicas
Em “Silver Spoon”, também conhecida como “Baepsae”, faixa presente no disco “The Most Beautiful Moment in Life: Part 2”, de 2015, o BTS expõe a profunda desigualdade econômica e a falta de oportunidades para a juventude atual, rebatendo diretamente a narrativa de que “basta se esforçar para vencer”, culpando as gerações anteriores por deixarem ambientes instáveis para a geração atual.
Na música, o grupo usa um provérbio coreano clássico sobre um pequeno pássaro (o baepsae) que tenta caminhar como uma garça (o hwangsae) e acaba machucando as próprias pernas. Na metáfora da canção, as garças representam a elite e as gerações mais velhas, que já nasceram privilegiadas com a “colher de prata” ou “colher de ouro” (herança e estabilidade financeira). Já os jovens comuns são os pequenos pássaros, que entram no mercado de trabalho e na vida adulta com extrema desvantagem estrutural.
A mesma crítica também surge em “Dope”, em que a letra cita o abismo cultural entre as gerações ao citar explicitamente na letra a “Geração Sampo” (e suas variações posteriores), um termo real usado na Coreia do Sul para descrever os jovens que são forçados a abrir mão de namoro, casamento e filhos devido às crises econômicas e ao custo de vida sufocante, criticando a mídia e os mais velhos que rotulam a juventude como “desistentes”, sem enxergar que a sociedade não oferece as condições mínimas para que eles prosperem.
2. Alienação política
A crítica principal de “Am I Wrong”, música do álbum “Wings” (2016), é à apatia e ao individualismo diante das injustiças e crises do mundo. Na letra, o grupo questiona a indiferença de uma sociedade que consome notícias trágicas diariamente, mas escolhe fechar os olhos e fingir que nada está acontecendo, desde que seus próprios privilégios ou confortos não sejam afetados, fazendo um apelo no refrão ao refletir que, em um mundo repleto de desigualdade e sofrimento, a verdadeira loucura não é protestar ou se indignar, mas sim manter a normalidade e a calma.
Para destacar essa realidade, a faixa conta com trechos inspirados em discursos políticos reais da época na Coreia do Sul, como o verso cantado por Suga, em que ele diz: “Somos todos cães e porcos / nos tornamos cães porque estamos com raiva”. Segundo informações da Billboard, a frase faz referência a um suposto comentário feito em 2016 por Na Hyang Wook, um funcionário do Ministério da Educação, dizendo que os sul-coreanos deveriam adotar um sistema de castas, descrevendo pessoas comuns como “cães e porcos”, e que deveriam ser tratados como tal.
3. Consumismo
A crítica ao consumismo surge em mais de uma música do BTS. Em “Go Go”, faixa do “Love Yourself: Her” (2017), por exemplo, eles criticam o consumismo desenfreado da juventude e a falta de perspectivas econômicas para o futuro, ao dizer que, diante de um mercado de trabalho precário, salários baixos e a impossibilidade real de comprar uma casa ou garantir uma aposentadoria, muitos jovens decidem gastar o pouco dinheiro que têm em prazeres imediatos e pequenas extravagâncias diárias.
Já ainda em seu segundo EP, o “Skool Luv Affair” (2014), na música “Spine Breaker”, o grupo critica o consumismo adolescente, a pressão estética dos grupos sociais e o impacto financeiro que isso causa nas famílias de classe trabalhadora. Na letra, o grupo critica a hipocrisia e o egoísmo de adolescentes que, movidos pela inveja e pelo desejo de validação social, fecham os olhos para o sacrifício e o suor de seus pais apenas para inflar o próprio ego e parecerem descolados, possuindo uma obsessão por jaquetas acolchoadas de marcas caras, que viraram um símbolo de status obrigatório nas escolas para que alguém não seja excluído ou ridicularizado.
4. Educação rígida
A Coreia do Sul é conhecida por possuir um dos sistemas de educação mais rígidos do mundo, e a pressão excessiva imposta nos estudantes também foi alvo de críticas nas músicas do BTS. Em “N.O”, o septeto critica a forma como as escolas e as famílias transformam os estudantes em “máquinas de estudar”, como dito no verso cantado por Suga, reduzindo os sonhos e a individualidade de toda uma geração à busca obsessiva por boas notas, diplomas de faculdades de elite e empregos em grandes corporações.
Em um dos versos, RM ainda questiona: “Quem se responsabilizará por vivermos como marionetes? / Isso realmente deixará nossos pais felizes?”. Ao decorrer da faixa, o grupo denuncia como a sociedade molda a juventude para pensar que a felicidade se resume a bens materiais e sucesso institucional, criando uma competição doentia em que os próprios amigos se tornam rivais.
5. Xenofobia
Em seu álbum mais recente, “ARIRANG”, o BTS também incluiu uma crítica social afiada e direta contra a xenofobia, o preconceito estrutural e a marginalização que os asiáticos enfrentam no Ocidente. Em “Aliens”, o grupo utiliza o duplo sentido da palavra “alien” (que em inglês serve tanto para extraterrestres quanto para o termo jurídico usado para designar estrangeiros/imigrantes) para escancarar como a indústria cultural e a sociedade ocidental muitas vezes os enxergam: como corpos estranhos, exóticos ou que não pertencem àquele espaço, por mais que alcancem o topo do mundo.
Durante a música, os membros usam a letra para exaltar o orgulho de suas raízes, da língua coreana e de sua identidade cultural, apresentando algumas tradições asiáticas que, por muitas vezes, são vistas como algo “esquisito” pelos estrangeiros.